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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O revolucionário W.M de Herbert Chapman

 

Resgatando a cronologia da evolução tática no futebol, baseados no livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson, o assunto do post de hoje publicado no blog Preleção em 2009 é importantíssimo: o primeiro sistema tático que revolucionou o futebol. A organização das equipes, com todos os conceitos norteadores para sistemas e estratégias, tornou-se prerrogativa fundamental a partir da criação do W.M. 

O pai dessa revolução tática é o técnico Herbert Chapman, que levou o Arsenal a protagonizar a maior inovação tática da história - se levarmos em consideração todos os efeitos consecutivos ao seu surgimento. Assim como acontecera no final do século XIX, foi uma nova alteração na regra do impedimento que motivou o desenvolvimento desta nova organização. Em 1925, os dirigentes da FA constataram que o Campeonato Inglês estava chato. Marcava-se poucos gols, mesmo com cinco atacantes dispostos no "default" 2-3-5. A solução encontrada foi reduzir para dois, e não mais três, o número de adversários necessários para legalizar a condição de qualquer jogador. Na prática, um goleiro e um zagueiro à frente eram suficientes - regra que perdurou até a criação da "mesma linha". Chapman, que desde 1925 treinava o Arsenal no corriqueiro 2-3-5, em 1930 experimentou três alterações de posicionamento: recuou o centromédio, colocando-o entre os dois zagueiros; e criou uma segunda linha de meio-campo, a partir do recuo dos dois atacantes-internos. *A leitura deste diagrama, um 3-4-3 (ou 3-2-2-3, como queiram) formava no campo duas letras - W no ataque, M na defesa. Nascia o W.M. 

 A estratégia, entretanto, contrariava o objetivo da FA na mudança da lei de impedimento. O W.M do Arsenal primava pelo contra-ataque. Chapman abdicava da figura do organizador - o centromédio, recuado para a zaga. Na frente, abria seus wingers. Sem a bola, o Arsenal recuava, compactando-se com três zagueiros e "dois volantes"; recuperada a posse, a equipe recorria à ligação direta, em lançamentos longos na direção dos wingers. Ter o recuo estratégio e o contra-ataque veloz pelos lados como estratégias fizeram o W.M consolidar no futebol inglês um estilo conceituado por Jonathan Wilson como o "wing-play" (algo como "jogo para os wingers"). 

Os wingers, espécie de pontas velocistas e individualistas, ganharam grande destaque. A Inglaterra formou uma verdadeira geração de craques para a função, notabilizando-se Stanley Mathews como seu principal protagonista - um jogador que criava e finalizava as próprias jogadas. Na prática, o wing-play fez o futebol inglês permanecer individualista, contrariando as filosofias coletivas do passe-curto adotadas na maioria dos países. Aos poucos, os resultados do Arsenal ampararam a disseminação do W.M como novo sistema tático default na Europa. Equipes que mantinham o 2-3-5 assumiam o risco do "atraso". Mas Chapman teve de lidar também com uma saraivada de críticas. Afinal, sua interpretação tática da nova lei de impedimento surtiu efeito contrário ao desejado pela FA. Ele foi acusado de tornar o futebol "ainda mais feio", mais defensivo. 

 Ele também foi responsabilizado pela estagnação do futebol inglês. Os resultados obtidos pelo W.M foram tão significativos que sua influência enrijeceu os demais treinadores locais. A partir do sistema de Chapman, técnicos de outros países desenvolveram variações, novas interpretações, modificações de acordo com as características de seus jogadores, e conforme a cultura tática que os norteava. Enquanto isso, a Inglaterra blindou-se às inovações. A culpa, obviamente, não era de Chapman. Na verdade, ele foi o precursor de uma filosofia de trabalho hoje impossível de se alijar do futebol: a do verdadeiro técnico, um profissional estudioso e dedicado. O comandante do Arsenal, pai do W.M, é tido por Jonathan Wilson como o introdutor do estudo tático. 

Chapman fazia preleções, com quadro-negro aos jogadores; analisava os adversários, combatendo suas virtudes e explorando suas deficiências; ministrava palestras táticas, debatia com seus atletas posicionamento. Via no futebol a necessidade de organização coletiva. A imprescindibilidade, aliás, desta organização. *P.S: vou adotar de agora em diante aqui no blog Preleção a leitura de diagramas táticas que formem letras (como o W.M) a partir do ataque para a defesa, como faz Jonathan Wilson no Inverting the Pyramid. No sistema de Chapman não há confusão, afinal, a leitura do W.M é possível da esquerda para a direita, e vice-versa. Mas em outros sistemas - veremos nos posts seguintes - as leituras são diferentes. Então é melhor adotar o mesmo padrão para não causar confusão.
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