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sábado, 14 de maio de 2016

Os reis da maracutaia

Havelange

Se não estou enganado há um mês da Copa do Mundo 2014, a Fifa anunciou detalhes da festa de abertura. Antes de o Brasil enfrentar a Croácia no novo estádio do Corinthians, em 12 de junho, o show contaria com a apresentação de mais de 600 bailarinos. Uma bola de 8 metros com milhares de lâmpadas de LED deveria se movimentar durante o espetáculo, com a participação do rapper Pitbull e das cantoras Claudia Leitte e Jeniffer Lopez. “A trilha sonora ficou muito bonita e levou dois meses e meio para ser composta”, anunciou, orgulhosa, Joana Havelange, do Comitê Organizador Local. A executiva só não antecipou se o pai, Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, e o avô, João Havelange, presidente de honra da Fifa, fosse mesmo prestigiar a festa. 

 Caso ocorresse, seria difícil as autoridades esconderem o constrangimento. Havelange e Teixeira ditaram os rumos do futebol brasileiro e mundial por mais de cinco décadas. Se o esporte mais popular do planeta acabou maculado por negociatas e tramoias variadas, muito se deve à dupla, que só largou o osso após a revelação de um multimilionário esquema de corrupção nas entranhas da Fifa. 

Pegos por um tribunal da Suíça, tiveram de devolver parte da propina e se afastar das entidades que presidiam ou mantinham influência. Essa longa trajetória de trapaças, fartamente documentada, é o centro do novo livro da editora Planeta, O Lado Sujo do Futebol, nas livrarias a partir do sábado 17. Os autores são jornalistas experientes, embora sem trajetória na cobertura esportiva. Trabalharam juntos, de 2011 a 2012, em uma série de reportagens para a televisão sobre os desmandos de Teixeira e Havelange. Três deles ainda integram a equipe da TV Record: Luiz Carlos Azenha, Leandro Cipoloni e Amauri Ribeiro Jr., este último autor do livro Privataria Tucana (Geração Editorial), retrato da rede de corrupção montada a partir das privatizações no governo FHC. 

O quarto autor é Tony Chastinet, hoje na Band. A obra de quase 400 páginas detalha como os cartolas transformaram o futebol em um negócio lucrativo, capaz de gerar recursos excedentes para assegurar o enriquecimento próprio e sua perpetuação no poder. Revela ainda como os dirigentes conseguiram escapar da maioria das denúncias, amparados na leniência do Judiciário e na intervenção amiga de parlamentares ligados a federações esportivas, a Bancada da Bola. 

 O principal mérito do livro é sistematizar as dezenas de acusações contra os cartolas, tanto aquelas extraídas de investigações oficiais, entre elas duas CPIs no Congresso, quanto de denúncias feitas pela mídia nacional e estrangeira. Ao volumoso trabalho de organização acrescentam-se revelações surpreendentes, a começar pelo involuntário pontapé dado pela Fifa nas investigações do esquema de corrupção da ISL, empresa que intermediava os contratos de televisão das Copas. Tudo começou quando Joseph Blatter, sucessor de Havelange no comando da Fifa, decidiu cobrar da massa falida da ISL o repasse de um pagamento da TV Globo pelos direitos de transmissão dos Mundiais de 2002 e 2006. Um promotor suíço resolveu investigar o caso a fundo. Por tabela, a Receita Federal do Brasil descobriria que a emissora da família Marinho sonegou 183 milhões de reais em impostos.


 O livro esmiúça o relacionamento de Teixeira e do ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell. Parceiros de negócios por mais de uma década, envolveram-se em nebulosas transações comerciais que movimentaram mais de 45 milhões de reais. A proximidade era tamanha que o então presidente da CBF apresentou o espanhol a Neymar em um ônibus da Seleção Brasileira, um empurrão na contratação do atacante pelo clube catalão. A contratação, diga-se, é alvo de processo na Espanha. Rosell chegou ao Brasil em agosto de 1999, cinco meses após o então deputado Aldo Rebelo, hoje ministro do Esporte, pedir a criação da CPI da Nike. Após o fracasso do Brasil no ano anterior, especulou-se que a multinacional poderia ter forçado a escalação de Ronaldo “Fenômeno”, seu principal garoto-propaganda, na final contra a França. Pouco antes da partida decisiva, o atleta apresentou sintomas de convulsão. Mesmo assim, entrou em campo. 

O resultado é conhecido por todos. Com a equipe apática, o Brasil perdeu de 3 a 0. Ter a marca associada a uma CPI era tudo o que os executivos da Nike não desejavam quando assinaram, três anos antes, um contrato de patrocínio de 400 milhões de dólares com a CBF e a Trafic, detentora dos direitos de comercialização da Seleção Brasileira. “Os verdadeiros donos da bola são os patrocinadores. João Havelange e Ricardo Teixeira não passam de office-boys das grandes companhias de material esportivo, que investem pesado para associar suas marcas aos grandes atletas”, comenta Cipoloni. 

 Com a missão de estancar a crise, Rosell assumiu a direção dos negócios da Nike para a América Latina e instalou-se no Rio de Janeiro. Enquanto o brasileiro fazia lobby para enterrar a CPI, o espanhol acionou um batalhão de advogados para afastar a multinacional do epicentro das investigações. A maior dificuldade foi esclarecer certas cláusulas do contrato de patrocínio, que permitiam à Nike influir no cotidiano da equipe, da convocação e programação de eventos à escolha de adversários em amistosos. “A CPI desnudou as negociatas de Teixeira à frente da CBF, os desvios de dinheiro, as empresas e contas em paraísos fiscais, mas... nada aconteceu. Em 2001, a comissão encerrou os trabalhos. 

O relatório não foi votado por influência da Bancada da Bola, e mais uma vez o País cumpriu a tradição de concluir uma CPI sem nenhum resultado prático”, registra o livro. Com o fim da ameaça, a dupla sentiu-se à vontade para voltar aos negócios. Em dezembro de 2001, Rosell fundou a Brasil 100% Marketing, em sociedade com o financista Cláudio Honigman e o ex-executivo da AmBev Alexandre Barreira Leitão, um dos responsáveis pelo contrato de patrocínio da Seleção Brasileira com as marcas Brahma e Guaraná Antarctica. Formalmente, Teixeira estava de fora, mas o rastro dos negócios da turma indica o oposto. Embora a atuação da Brasil 100% ficasse nas sombras das negociatas da CBF, um episódio ocorrido pouco antes da Copa da Alemanha em 2006 revelou a verdadeira natureza do negócio. 

Meinolf Sprink, então diretor de esportes da Bayer AG, proprietária do Bayer Leverkusen, denunciou ter sido vítima de uma tentativa de extorsão do grupo. Em entrevista à rádio alemã ABK, Sprink afirmou ter sido sondado por e-mail por um executivo da Brasil 100%. Em nome da CBF, a empresa queria saber quanto o Bayern estava disposto a pagar para a Seleção utilizar o centro de treinamentos do clube durante a Copa. A revelação mais surpreendente sobre o modus operandi do grupo foi feita, porém, pelos autores do livro. Ao vasculhar os papéis do 3º e 5º cartórios de Títulos e Documentos do Rio de Janeiro, a equipe descobriu uma série de operações financeiras entre Teixeira, Rosell e Honigman.

 As transações movimentaram mais de 45 milhões de reais em promessas de compra e venda de ações da Alpes, corretora atuante na Bovespa. A Alpes sugere que as operações eram fraudulentas. Em nota aos autores do livro, a corretora esclareceu que Honigman não poderia ter feito as transações por nunca ter sido acionista da empresa ou ter poderes para tanto. “Ao que tudo indica, as transações eram de fachada, feitas para lavar dinheiro”, diz Ribeiro Jr. Embora ativa na Receita Federal, com dívidas tributárias de 700 mil reais, a Brasil 100% não funciona mais. Honigman deixou o País em 2008. Atualmente é investigado pela Polícia Federal por associação com o doleiro Alberto Youssef. 

 Com a desativação da Brasil 100%, Teixeira e Rosell retomaram a parceria na nova empresa do espanhol, a Ailanto Marketing. A empresa foi criada em maio de 2008 por Eduardo Duarte e Simone Burk Silva com um capital social de apenas 800 reais. Dono de uma consultoria de regularização de firmas, Duarte foi um dos investigados pela PF na Operação Alquimia, de 2011, que apurou o uso de empresas fantasmas para a sonegação fiscal. Em 2 de julho de 2008, Rosell e sua secretária, Vanessa Precht, assumiram a Ailanto. Em menos de dois meses, o capital da empresa passou de 800 para 12,8 milhões de reais. Igualmente em tempo recorde assinaria seu primeiro grande contrato, a organização do amistoso da Seleção Brasileira em novembro de 2008. 

O jogo marcou a inauguração do Bezerrão, o novo estádio do Gama, no Distrito Federal. E garantiu um faturamento de 9 milhões de reais à recém-nascida empresa. O então governador, José Roberto Arruda, se dispôs a bancar a gastança com dinheiro público, sem licitação. O contrato deveria ser firmado com a ISE, empresa árabe detentora dos direitos de comercialização de amistosos da Seleção. Mas a companhia cedeu os direitos à espanhola BSM, que, por sua vez, indicou a Ailanto. Detalhe: o documento da BSM tem a assinatura de Rosell. A empresa sediada em Barcelona também pertencia ao parceiro de Teixeira. O procurador Marcos Souza e Silva cobrou, porém, o detalhamento dos gastos, bem como um laudo de capacidade técnica da Ailanto. 

A manobra usada por Rosell para despistá-lo, destaca o livro, é uma aula de malandragem. A Ailanto encaminhou ao procurador uma carta de aptidão expedida pela BSM, com a assinatura de Marta Rodriguez, à época esposa de Rosell. A declaração diz que a Ailanto organizara grandes eventos, entre eles o Campeonato Mundial de Esqui de Sierra Nevada, em 1996. Como seria possível se a empresa tinha seis meses de vida? O superfaturamento foi comprovado após uma investigação requisitada pelo promotor Albertino Netto. Segundo a Polícia Civil, a Ailanto declarou, entre outras, ter gastado 900 mil reais com passagens aéreas para a Seleção, mas o valor foi de 617,7 mil. As diárias de hotéis tinham sobrepreço de 44%. Além disso, a Ailanto ficou com a receita da bilheteria, 1,3 milhão de reais, apesar de o poder público ter custeado todas as despesas. 

 Em junho de 2011, outra revelação da equipe da Record. No 1º Ofício de Registro de Títulos e Documentos do Rio, os jornalistas encontraram o contrato de arrendamento de uma das fazendas do cartola a Vanessa Precht, sócia da Ailanto. Assinado quatro meses após o amistoso, o documento previa o pagamento de 600 mil reais a Teixeira. Mas os funcionários da Fazenda Santa Rosa, em Piraí (RJ), nunca viram um arrendatário nas terras. As investigações acabaram prejudicadas com a repentina morte do promotor Albertino Netto, vítima de um acidente de carro. Antes de seus colegas concluírem o caso, Teixeira deixou a presidência da CBF e refugiou-se em Boca Ratón, Flórida, em março de 2012. Meses antes, Rosell ainda desfrutava das benesses da amizade com o presidente da CBF. Pegou carona no ônibus que levou os jogadores do Brasil ao estádio Ciudad de La Plata para uma partida pela Copa América, em 3 de julho de 2011. E ficou hospedado no mesmo hotel dos atletas, entre eles Neymar, com quem conversou longamente pelos corredores do hotel. Começaria ali a negociação de transferência do brasileiro para o Barcelona, sustenta o livro. O acordo entre Rosell e Neymar foi assinado poucos meses depois, mas ficou na gaveta por um bom tempo. Somente em maio de 2013 o time catalão anunciou a contratação do atacante, por 35 milhões de euros. 

 Não tardou para um sócio do clube, Jordi Cases, perceber um desvio de 40 milhões de euros na transação. Em janeiro de 2014, o jornal espanhol El Mundo colocaria mais lenha na fogueira, ao afirmar que o valor total seria de 95 milhões de euros, uma das contratações mais caras da história do futebol. Rosell foi forçado a admitir que o jogador tinha custado mais, 57 milhões. E renunciou à presidência do Barça. Quando o amigo brasileiro caíra em desgraça, o espanhol não negou apoio. Seis meses após Teixeira deixar o Brasil, a Ailanto de Rosell comprou a participação da esposa do cartola em duas salas comerciais por 2,8 milhões de reais. Em junho de 2012, novo ato de caridade: depositou 3,8 milhões de reais na conta da filha de 11 anos de Ricardo Teixeira. A revelação foi do jornalista Juca Kfouri: “A impunidade é chocante. Teixeira teve tempo de transferir suas propriedades para parentes e fugir do País”. O superfaturado amistoso da Seleção não era a única preocupação do cartola, embora não possa ser subestimado.

 “Ao assumir a CBF, em 1989, ele abdicou das receitas da Loteria Esportiva. Foi uma jogada de mestre. Como não administrava dinheiro público, não tinha de prestar contas aos órgãos de fiscalização”, comenta Azenha. “Mas o amistoso foi custeado pelos cofres públicos. Desta vez, ele poderia não se safar.” Teixeira e Havelange estavam enredados em graves denúncias de corrupção na Fifa desde 2010. A rede britânica BBC revelou como a dupla recebeu propina da ISL. A empresa pertencia a Horst Dassler, dono da Adidas, antigo parceiro de Havelange, que ensinou o brasileiro a lucrar com os milionários pacotes de patrocínio e repartir as “comissões” entre dirigentes esportivos. 

O caso despertou a atenção do promotor suíço Thomas Hildebrand, que conseguiu furar o bloqueio de diferentes paraísos fiscais e perfazer o caminho da propina. De 1992 a 1997, a ISL fez transferências totais de 9,5 milhões de dólares à Sanud, empresa sediada em Liechtenstein e sócia, no Brasil, da RLJ Participações, de propriedade de Teixeira e sua primeira esposa, Lúcia Havelange. O promotor suíço descobriu que a Sanud pertencia a Teixeira, fato que o cartola negou durante a CPI da Nike. A partir de 1998, os repasses da ISL passaram a ser feitos para outra empresa, a Rendfort, também controlada pelo ex-presidente da CBF. Os depósitos na conta da empresa somaram 21,9 milhões de francos suíços (perto de 61 milhões de reais). 

 Curiosamente, todo o processo foi desencadeado pela própria Fifa, ao cobrar da massa falida da ISL o repasse de um valor pago pela TV Globo pelos direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006. Em dificuldade financeira, a ISL concedeu um desconto à emissora brasileira na antecipação de uma parcela de 66 milhões de dólares. Mas a ISL quebrou em maio de 2001 sem nunca ter feito o repasse devido à Fifa. Blatter cobrou o débito na Justiça e colaborou para a fritura de Havelange. Executivos ligados à extinta ISL não hesitaram em vazar informações sobre o esquema. Hildebrand teve o cuidado de informar às autoridades do Brasil os passos da investigação. Foi assim, sustentam os autores do livro, que a Receita Federal identificou a sonegação da TV Globo. 

Por meio da Globo Overseas, a família Marinho investiu nas Ilhas Virgens britânicas para formar outra empresa, a Empire. Um ano depois, ela seria dissolvida e, com seu capital, a Globo compraria o pacote da Fifa. Para o Fisco, tratou-se de uma manobra ilegal. A emissora foi condenada a ressarcir os cofres públicos 615 milhões de reais, valor do imposto mais multa. “Estranho é a Polícia Federal não ter sido acionada para investigar a eventual prática de lavagem de dinheiro”, comenta Ribeiro Jr. Para evitar uma condenação na Suíça, os cartolas brasileiros fecharam um acordo e devolveram parte da propina. Teixeira desembolsou 2,5 milhões de francos suíços. Havelange, por sua vez, pagou 500 mil francos suíços. A punição parece branda, mas pela primeira vez a dupla viu-se obrigada a responder por seus atos na Justiça. No Brasil, a impunidade continua. 

No episódio do amistoso da Seleção, a Justiça condenou o ex-governador Arruda e seu secretário de Esportes, Aguinaldo de Oliveira, por improbidade administrativa. A Ailanto de Sandro Rosell foi absolvida. Outro processo criminal, aberto em 2013, apura os crimes de falsidade ideológica e dispensa ilegal de licitação. Rosell e Arruda são réus, mas o ex-presidente da CBF está de fora. Como o livro destaca, “não fosse o tribunal suíço, Teixeira talvez ainda reinasse absoluto no futebol brasileiro”. Faz sentido.
CartaCapital