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domingo, 22 de maio de 2016

VIDEO : A dor de Obdulio e a condenação dos 11 brasileiros de 1950

VIDEO :
1950 , Obdulio Varela encarnava a raça uruguaia. O capitão é o símbolo maior da postura aguerrida que tanto marca a Celeste. E sua atuação na final da Copa de 1950 é uma das mais emblemáticas já ocorridas no futebol. ‘El Jefe Negro’ não venceu o Brasil no talento, mas na mente. Experiente, conduziu um time jovem a não temer o furor de 200 mil torcedores e os prognósticos pessimistas. Esfriou o Maracanã depois que Friaça abriu o placar, permitindo a virada dos charruas. O bicampeonato mundial, tão dolorido aos brasileiros.
Mas engana-se quem pensa que Varela se orgulhava do feito. Pelo contrário. A tristeza que assolou o Rio de Janeiro abateu o capitão. “Percebi como aquele povo era bom. Como aquilo era importante para eles”, confessou certa vez ao escritor Eduardo Galeano. No dia 16 de julho de 1972, exatos 22 anos depois da marcante final, o uruguaio concedeu longa entrevista ao jornalista Osvaldo Soriano, do diário ‘La Opinión’. Na ocasião, falou sobre o espírito de luta do Uruguai para vencer aquele jogo. Mas também do arrependimento pelas consequências, admitindo a vontade de marcar até um gol contra. Algo reproduzido no trecho abaixo (para ler o depoimento na íntegra, em espanhol, clique aqui):
Quando fizemos o segundo gol, o de Ghiggia, não podíamos acreditar. Campeões do mundo, nós, que vínhamos jogando tão mal! No fim da partida, estávamos como loucos. No Brasil, havia dor. Era uma desolação.
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Nesta noite, sai com meu massagista para ir a um bar tomar algumas cervejas e caímos no de um amigo. Não tínhamos um só cruzeiro e pedimos fiado. Fomos a um canto beber e daquele ponto olhávamos as pessoas. Estavam todos chorando. Parecia mentira: todo mundo tinha lágrimas nos olhos. De imediato, vejo entrar um grandalhão que parecia desconsolado. Chorava como um bebê e dizia: “Obdulio ganhou a partida contra nós” e chorava mais. Eu o olhava e me lastimava. Eles haviam preparado o maior carnaval do mundo para essa noite e nós havíamos arruinado. Segundo esse homem, eu havia arruinado.
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Eu me sentia mal. Dei-me conta que estava amargurado como ele. Seria lindo ter visto esse carnaval, ver como as pessoas se alegravam com uma coisa tão simples. Nós havíamos arruinado tudo e não havíamos ganhado nada. Tínhamos um título, mas o que era isso diante de tanta tristeza? Pensei no Uruguai. Ali, as pessoas estariam felizes. Mas eu estava no Rio de Janeiro, no meio de tantas pessoas infelizes. Lembrei-me da minha fúria quando fizeram o gol, da minha raiva, que agora não era minha, mas me doía.
O dono do bar se aproximou de nós com o grandalhão que chorava. Ele disse: “Sabe quem é esse? É Obdulio”. Eu pensei que ia me matar. Mas me olhou, me deu um abraço e seguiu chorando. Depois de um tempo me disse: “Obdulio, poderia beber conosco? Queremos esquecer, sabe?”. Como eu ia dizer que não! Estivemos a noite toda bebendo nos bares. Eu pensei: “Se tenho que morrer nesta noite, que seja”. Mas estou aqui.
Se tivesse que jogar outra vez essa final, faria um gol contra, sim senhor. Não, não se assombre. A única coisa que conseguimos ao ganhar esse título foi dar brilho aos dirigentes da Associação Uruguaia de Futebol. Eles se deram medalhas de ouro e aos jogadores deram umas de prata. Você crê que alguma vez concordaram em festejar os títulos de 1924, 1928, 1930 e 1950? Nunca. Os jogadores que participaram daqueles campeonatos se reúnem agora por nossa conta, sempre no dia 18 de julho, que é feriado nacional. Festejamos por nossa conta. Não queremos nem contato com os dirigentes.
A outra ponta da história une a melancolia dos brasileiros. Reza a lenda que Obdulio Varela se comunicava por telepatia com Zizinho, de quem se tornou amigo depois do fatídico dia. O Mestre Ziza, craque da Seleção em 1950, que nem assim se eximiu do fardo deixado pela derrota. Uma pena paga por ele e pelos outros 10 titulares do Brasil no Maracanã, de Barbosa a Ademir de Menezes.
Um documento histórico dessa chaga é o livro ‘Dossiê 50’, de Geneton Moraes Neto. Na década de 1980, o jornalista conversou com os 11 brasileiros que estiveram em campo na decisão – nenhum deles ainda vivo. Uma crua reunião da mágoa guardada por todos. Publicada originalmente em 2000, a obra será relançada neste ano. E ganha um complemento com o documentário “Dossiê 50: Comício a favor dos náufragos”, dirigido pelo próprio Geneton.