Futebol foi instrumento político durante a ditadura militar


A relação íntima entre o regime militar e o futebol brasileiro serviu de objeto de estudo para a dissertação de mestrado do pesquisador, Aníbal Renan Martinot Chaim, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O levantamento feito pelo pesquisador detalhou como a seleção brasileira de futebol foi utilizada como instrumento de propaganda política durante os chamados “anos de chumbo” da ditadura. Após o golpe militar em 1º de abril de 1964, o Brasil passou a viver um período de grande instabilidade inclusive com muitas forças políticas descontentes com o novo regime. 

Em 28 de março de 1968, já durante o governo Costa e Silva, o estudante Edson Luís foi assassinado num confronto com a Polícia Militar o que “desencadeou uma série de acontecimentos que acabou por exponenciar a polarização entre reformistas e conservadores no país. Se até aquele momento, em março de 1968, houve relativa aceitação dos métodos de exceção utilizados pelo governo militar em nome da consolidação dos objetivos da ‘Revolução’, a morte daquele estudante ceifou o pouco que havia restado das expectativas reformistas”, relata Aníbal em sua dissertação. Ciente das pressões que estava sofrendo, o presidente Costa e Silva definiu que o futebol seria uma boa forma de acalmar os ânimos da população e convocou uma reunião com o então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD - atual CBF), João Havelange, e com o vice, Paulo Machado de Carvalho. Nessa reunião, Artur da Costa e Silva afirmou que “o Brasil não pode perder este campeonato. Temos de dar um jeito de qualquer forma . 
Em 1970 o Brasil estará disputando essa taça do mundo. 

Como presidente, gostaria que o povo brasileiro, ainda na minha gestão, festejasse a conquista” como ficou registrado na edição de 4 de dezembro de 1968 de A Gazeta Esportiva. Com o afastamento de Costa e Silva, Médici assumiu e os planos de atrelar a imagem da presidência da república ao futebol seguiram. Um dos primeiros atos do novo presidente foi assinar a criação da Loteria Esportiva por meio da qual a CBD conseguiu realizar “uma preparação física e tática bastante rigorosa para a Copa do Mundo que se aproximava”, conta Aníbal. Médici passou a comparecer aos eventos esportivos e também a se aproximar dos jogadores que integravam a seleção brasileira. “Às vésperas do embarque da seleção brasileira para o México, Médici promoveu um banquete no Palácio das Laranjeiras para o qual convidou todos os jogadores que representariam o país”, relata o pesquisador. 

Ainda antes da estreia da seleção na Copa do Mundo de 1970, Médici enviou um telegrama desejando boa sorte aos jogadores e alguns dias depois o título mundial veio para o Brasil, sendo recebido em Brasília com muita pompa. A copa do mundo é nossa A relação próxima entre políticos e esportistas não foi uma novidade no século 20. Os Jogos Olímpicos de 1936, realizados em Berlim durante o regime nazista, bem como a Copa do Mundo realizada na Argentina em 1978, durante a ditadura militar, são apenas alguns exemplos semelhantes ao brasileiro. Em 2014, ano em que o golpe completa 50 anos, o Brasil realiza uma Copa do Mundo no primeiro semestre e as eleições presidenciais no segundo. 

O especialista na relação entre política e esporte afirma que “assim como na Copa de 50, para receber um evento como este é necessário gastar muito dinheiro e esse dinheiro precisa ser tirado de outros lugares pra abrigar um Copa do Mundo. Seria possível realizar outros eventos com menos dinheiro, mas a preferência pelo esporte não é a toa”. Com isso, a expectativa é saber se o desempenho esportivo da seleção brasileira refletirá nas urnas. 

  
                         Fonte: Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas 

                 Agência Universitária de Notícias

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