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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

GOAL : “Em que planeta você vive que não sabe quem é Messi?”

Yina tentou aquecer o garoto quando ele se queixou do frio. Estava -18º C em Berlim e da sua boca saía uma fumaça misturando cheiro de oxigênio e tabaco. Eu tinha acabado de conhecê-la, mas não me importava muito.
Tinha uns olhos celestes e uma boca com um dicionário de palavrões e insultos. Cuspia, metia o dedo no nariz e tomava comprimidos, uma droga que - dizia - "amava incondicionalmente". Ainda assim, apesar da sua falta elegância, eu não pude evitar. Eu não pude deixar de amar o momento em que ela teve a sua mais bela explosão. Após escutar a história da taiwanesa, ela disse:
"P...., de que planeta ela é que não sabe quem é Messi?"
Quatro horas antes, eu tinha chegado em Berlim. Meus olhos lacrimejavam cada vez que a neve tocava a pupila. Eram 21h, mas todos já tinham comido. Solidão e frio excessivo estavam perto de mim em desespero quando uma pequena taiwanesa perguntou qual era meu nome e me convidou para jantar em um restaurante onde, eu não sei o motivo, dava massas de graça.
Any parecia de outro planeta. Sem que tivéssemos tomado até mesmo um copo de vinho, ela perguntou se eu falava espanhol ou português na Argentina, se era verdade que o Uruguai é um país da América Latina e se toda a comida era picante. Foi uma conversa com pouca conexão com a realidade que durou mais de cinco minutos, mas naquele momento eu sabia que tinha que fazer muito esforço para não perder a minha única amiga. Quando ela me disse que era graduada em administração de empresas e filha única, fiz o meu próprio estudo científico para encontrar o exemplo exato do que queria, mais ou menos dizendo de onde eu estava vindo. E disse, quase que desesperado, em Inglês:
- Messi, Messi é argentino.
- O quê?
- Messi é do meu país.
- Quem?
- Messi, Lionel Messi, o jogador do Barcelona.
- Não, não sei.
- Como você não sabe?
- Eu não sei de quem você está falando.
Eu soltei um 'ah'. Por alguns minutos, minha cabeça explodiu. Será que ela compreendeu corretamente? Como ela podia não saber quem era Messi? Se nos aeroportos ele estampa uma propaganda de uma marca de roupas, se representa uma companhia aérea, se está em cartazes nas ruas, se estava no banheiro em um recipiente de shampoo. Como? Como pode existir alguém que nunca viu Messi?
Definitivamente, ou globalização não era tão forte quanto eu imaginava ou Any não entendia nada de nada.
Tomamos vinho, conversamos, comemos uma massa horrível e cantamos parabéns para um australiano que comemorava aniversário na mesa ao lado. Mas nada me fez recuperar a felicidade.
Ela me contou sobre Taiwan, a história do seu país, de que não era a China, que na verdade Mao Tse Tung havia anexado, que já não eram comunistas, que sempre tinham sido capitalistas: eles eram "liberdade".
Ou seja, livres.
Livres.
Nada disso, taiwanesa.  Quatro Bolas de Ouro, recorde no Guinness em número de gols oficiais em uma temporada, 91 gols em 69 jogos, 21 jogos seguidos balançando as redes, artilheiro do Barcelona, 26 títulos conquistados no Barça. E no entanto, pensas que és livre. Livre é aquele que sabe quem é Messi.
Pensei, claro, pensei, e quando eu já estava irritado com seu pequeno discurso de capitalismo livre, quando estava com problemas de voltar à realidade, ouço algo insólito: "Você sabe qual argentino eu conheço? Ginóbilli".
- Como você conhece Ginóbili?
- Emanuel Ginobili eu sempre vejo na TV.
- Em Taiwan assistem basquete?
- Sim, nós vemos muito NBA.
- Eu não sabia que basquete era forte no seu país.
- Sim, vemos muito.
- E vocês têm uma forte liga local?
- Não, nós não jogamos.
- Como assim não jogam?
- Somos muito pequenos para jogar.
Obama, McDonalds, Burger King, Coca Cola, Gap, montanhas-russas e qualquer acúmulo de culturas atingira seu ponto mais alto: Não sabe quem é Messi, mas conhece Ginóbili porque assiste um esporte que não joga pois é pequena apenas pelo fato dos Yankees colocarem a liga deles na TV. 
Eu disse que estava frio, que era melhor ir embora.
No caminho de volta para o albergue onde eu estava indo dormir, eu vi Yina perto da porta. Era bonita, com uma saia curta, com longas meias pretas, botas brancas, com um suéter amassado, ombros curvados pelo frio. Tão linda que eu pensei que era um momento único para contar-lhe a história. E, mais uma vez, eu pensava nela. Aproximei-me, deixei a neve de lado e perguntei se ela o conhecia. Antes de responder, o garoto que estava sendo aquecido disse que eles eram do Cazaquistão e que, naquele momento, estava -30º C lá.
Depois disso, completou: "Claro, no Cazaquistão todos nós sabemos quem é Messi. Quem pode não pode saber?"
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